sábado, 7 de setembro de 2019

luz, câmera, queimação


Ainda antes dos vinte eu pensei em ser ator até que uma amiga, Flávia Cotrim, me ligou chamando pra um teste.
– É pra um comercial. Esteja na produtora às 13h.
Cheguei e esperei minha vez.
– Boa tarde – disse eu pra diretora e pro câmera, quando fui chamado.
– Fique ali no centro, vire pra mim, tire a camisa e dance.
– Hein?
Ela repetiu a ordem, eu pedi desculpas, disse que não faria, nem sabia do que se tratava o teste...
– É propaganda de cerveja, o teste é pra figurante bebendo e dançando na praia – me explicou, enfim, a impaciente diretora.
Liguei puto pra Flávia.
– Porra, você não quer ser ator? Tem que fazer de tudo – disse ela.
Não rolou.

Em junho desse ano (2019), fui chamado por uma professora da faculdade de medicina pra ira até lá falar sobre cuidados paliativos aos seus alunos. Agradeci o convite, mas declinei com o argumento de que eu não tinha (não tenho) nenhuma autoridade no assunto.
– Mas no livro você parece saber tanto sobre o assunto – enfatizou.
Eu disse que o livro tem uma personagem que trabalha com cuidados paliativos e que é ela quem sabe do assunto.
– Se quiser que eu fale do livro, aí, de repente, podemos pensar em algo.
 Ainda não aconteceu.

Ainda nesse mesmo mês, recebi um outro convite, dessa vez de uma produtora de um programa de TV, para gravar uma matéria sobre o livro.
– Você imagina algum lugar? – ela me perguntou.
– Pode ser na Midialouca. Uma livraria que fica ali na Fonte do Boi, fácil acesso, silencioso, o dono é meu amigo – respondi.
Ela não gostou. Disse que falar de livro com livros atrás era muito clichê.
– Tava pensando num cemitério – sugeriu.
– Hein?
– O livro não fala de morte?
Eu ri. Ela disse que não tinha lido o livro, só tinha visto uma matéria no jornal. Eu expliquei que era o contrário, que o livro falava de vida.
– Midialouca, então? – perguntei.
Ela disse que ia pensar e voltou com a ideia de ser na casa dos pescadores, no Rio Vermelho, ao lado da igreja de Sant`Ana.
– Tem um personagem que é pescador, né? – perguntou.
Eu ainda preferia a Midialouca, mas no dia marcado cheguei pontualmente à casa dos pescadores, onde rapidamente encontrei a equipe do programa. Apresentações feitas, a repórter disse:
– Então, a ideia é que você venha andando pela areia com o seu livro na mão, na beira do mar, de lá da outra ponta da praia até aqui.
– Hein?
– Como você tá de calça jeans, tire o sapato e dobre a calça até a canela – comentou o cinegrafista.
– É pra gente fazer umas imagens suas, pra intercalar com a entrevista.
– E no meio da praia você dá uma parada, que vou fazer um close, lê um trecho do seu livro e olha pro mar...
Eu ri e fiquei procurando a melhor forma de dizer que não iria fazer aquilo.
– Olhe só, eu não vou fazer isso.
– Hein? – perguntaram, sincronizados.
– Não tem nada a ver, não ando na praia lendo um livro, muito menos o meu.  
A repórter disse, já um pouco nervosa, que eu tinha que entender que o programa não era só texto, mas também áudio e vídeo, e que um roteiro tinha sido pensado para a matéria.
Eu disse que não era ator e que havia sido convidado pra dar uma entrevista.
– Mas se você quer divulgar o livro, você tem que aparecer.
– Sim, mas não dessa forma. E quem tem que aparecer mesmo é o livro e não eu.
Ficou um climão salvo por Xangô. Um trovão apareceu junto com uma ventania e uma chuva iminente, cortando todas as chances de rodar aquele roteiro. Já que era pra ter imagens intercalando a conversa, sugeri que fizessem algumas da tempestade chegando assim como dos pescadores tratando os peixes. Eram as duas coisas mais a ver com o livro que tínhamos ali.
A entrevista foi feita na Midialouca, com os livros atrás, mas ainda não foi ao ar.


09/2019

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